sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Boxe com luvas.

Evolução do boxe com luvas.
Neste artigo, apontaremos os grandes passos da mudança do estilo boxe "sem luvas" para o "com luvas". Para isso, nos basearemos nas detalhadas e extensas análises, realizadas pelo grande historiador Michael Hunnicut, de gravuras, filmes e descrições de lutas de boxe no período de 1900 a 2004. Resumiremos as mudanças que Hunnicut identificou, selecionando para comentar:

   -- guarda e posicionamento das mãos
   -- deslocamentos laterais
   -- quantidade de socos por round
   -- uso de combinações de socos
   -- socos curtos e o infighting

Conforme vimos em matéria anterior (Surgimento do boxe com luvas), a transição do prize fighting (ou boxe sem luvas) para o boxe com luvas ocorreu aproximadamente entre 1870 e 1890, com a adoção das Regras de Queensberry.

Nos primeiros tempos: as grandes novidades, eram a obrigatoriedade do uso de luvas e os rounds de duração fixa (3 minutos). Continuou o costume de não ser estabelecido o número de rounds da luta; esta devia terminar somente com um nocaute, desistência ou intervenção da polícia. Eram comuns lutas durarem 20 rounds, 45 ou mais.

Enquanto não se passou a fixar de antemão o número de rounds das lutas (o que só se tornou comum lá por 1920), a maior parte do treinamento era dedicado ao condicionamento físico e do modo feito na época do boxe sem luvas. Contudo, na medida em que foram se conscientizando das liberdades e limitações das novas regras, as inovações técnicas logo passaram a ser alvo de atenção crescente e isso levou a uma gradativa mudança no estilo de luta, já a partir de cerca de 1900, como passaremos a mostrar.

Guarda e posicionamento das mãos

A mais evidente característica dos boxeadores sem luva era sua guarda: o tronco ficava inclinado para trás (era o modo de proteger o plexo solar e de evitar cortes no rosto), com o peso do corpo sobre a perna direita, a qual ficava atrás e na mesma vertical que a cabeça; os braços estendidos para frente, na altura da barriga ou peito, e em constante movimentação: ameaçando dar socos ou bloqueando socos. Na hora da aplicação do soco, havia uma troca de peso entre as pernas, o que possibilitava levar o peso do corpo junto com o soco. Na hora de se defender, as mãos subiam da altura da barriga ou peito para a altura da cabeça, objetivando bloquear ou desviar os socos com os ante-braços.

As Regras de Londres (1838) proibiram a luta de agarramento, o que fêz com que a guarda ficasse mais vertical e as mãos descessem: a esquerda mais a frente e a direita protegendo o plexo solar. Essa guarda favoreceu o surgimento das esquivas de cabeça.

A guarda moderna teve como principal pioneiro Jim Corbett que, em 1892, se tornou o primeiro campeão do boxe com luvas. Outro boxeador que muito influiu na mudança de guarda foi Jack Johnson (campeão mundial entre 1908 e 1915).

Gradativamente, as mãos passaram a ficar mais acima. Lá por 1920, já era comum se usar a mão direita em posição de bloqueio e a esquerda na altura do peito, de modo a facilitar o deslocamento de pernas, corpo e cabeça. Por cerca de 1930 tornou-se padrão conservar as duas mãos na altura da cabeça ao longo de toda a luta.

Deslocamentos laterais

A desvantagem da guarda da época sem luvas era a pouca mobilidade permitida: tipicamente, avançar ou recuar. Lá por 1780, o grande boxeador Daniel Mendoza inventou o side-step (passo ao lado).

A guarda quase moderna de Jim Corbett já lhe permitia os deslocamentos laterais. Por cerca de 1920 os deslocamentos laterais e o side-step (passo ao lado) eram de uso comum.

Quantidade de socos por round

No período do boxe sem luvas, o estilo de lutar dependia muito da necessidade de se proteger as mãos ao longo dos muitos rounds da luta: dava-se menos socos por round e de preferência em partes macias do corpo (como no plexo solar). Naquela época, o boxeador tinha de ter muita malícia e ser igualmente capaz de aplicar e escapar dos socos. A luta era bastante rápida, mas com muito mais fintas do que socos.

Com a introdução das luvas, logo se percebeu que podia-se dar um maior volume de socos, bem como novos tipos de socos. Por cerca de 1910 já tínhamos lutas onde os boxeadores davam uma média de cerca de 80 a 100 socos por round, e isso ao longo de 25 ou mais rounds. Por exemplo, a disputa do título de campeão dos leves em 1910 (entre Ad Wolgast e Bat Nelson) durou 42 rounds, sendo que até o round 39 a média de socos foi de 85 por round. Compare com a média de 51 socos por round dados por Oscar de la Hoya nos 12 rounds de sua luta contra Shane Mosley!

Entre 1920 e 1930 ficaram proibidas as lutas de mais de 20 rounds. Isso, segundo Hunnicut, tornou o preparo físico ficou menos importante do que a preparação técnica, o que deixou os boxeadores menos resistentes, capazes de dar menos socos por round.

Uso de combinações de socos

Na época do boxe sem luvas, os socos eram diretos isolados, misturados com socos ao corpo e alguns um-dois. As luvas deram a oportunidade de surgirem as primeiras combinações de dois a três socos. Por cerca de 1930, já era de uso comum uma grande variedade de combinações e essas podiam envolver até quatro ou cinco socos.

Socos curtos e o infighting

Na época do boxe sem luvas, por influência da esgrima, preferia-se socos retos longos; os poucos socos curvos eram bastante abertos. Evitava-se o infighting (luta na curta distância) e o uso de ganchos, pois deixavam o lutador sujeito a projeções e a contra-golpes curtos e rápidos no estômago.

O uppercut foi inventado por Dutch Sam, um famoso peso leve de cerca de 1800, e depois muito popularizados por Jack Johnson, que o empregava com muito sucesso. Antes dele, Bob Fitzsimmons (campeão de 1897 a 1899), dono de uma tremenda pegada, muito popularizou outros socos curtos.

Kid McCoy, um meio-pesado que teve seu auge lá por 1900, foi considerado um verdadeiro artista no emprego do infighting: chegando junto do adversário, lhe aplicava uma saraivada de socos no corpo e uppercuts no queixo. Sua enorme fama, provocou muitos imitadores.

Como infighting é muito desgastante para ambos os lutadores, sua adoção generalizada ocorreu somente após a proibição das lutas com 20 ou mais rounds, lá por 1930.

Referências:
- Michael Hunnicut: The Development of Boxing Strategies, Styles and Techniques During the Gloved Era to Present--Part 1. IBRO Journal, 85, March 2005.
- Idem: The Development of Boxing Strategies, Styles and Techniques During the Gloved Era to Present--Part 2: The Era 1900-1915..

Texto: © 2010, pela Fed. Rio-Grandense de Pugilismo.

Tipos de lutadores

Estilos de boxeadores profissionais.


O tipo de treinamento que um boxeador recebeu seu biotipo (altura, envergadura etc) e a potência de seus socos (se é pegador ou não) é importante na determinação de seu estilo de luta. Os melhores lutadores também são capazes de alterar seu estilo usual de modo a melhor explorar um ponto fraco do adversário.

1).- Estilos básicos

Os apreciadores do boxe identificaram quatro estilos básicos com os quais podemos "compor" o estilo real de cada boxeador. Em particular, note que um dado boxeador pode ter mais de um dos estilos básicos a seguir. Também é preciso atentar que tudo o que escreveremos refere-se ao boxe moderno, ou seja: ao boxe com luvas.

O estilista (ou ortodoxo ou out-boxer)

Trata-se de um boxeador técnico, com um estilo de luta bonito de ser visto, que se movimenta com elegância no ringue, além de ter muita velocidade e uma defesa exemplar. O estilista que não é alto luta na base do "entra, bate e sai", enquanto que o estilista alto aproveita sua altura dando preferência à aplicação de jabs para cansar e manter o adversário à distância (daí também serem chamados de out-fighters). Na eventualidade de o adversário conseguir diminuir a distância, um rápido jogo de pernas volta a colocar a luta sob seu controle.

O melhor exemplo de estilista foi Muhammad Ali. Muito de sua enorme popularidade deve-se a seu rápido jogo de pernas e seus jabs contundentes. Quando conseguia cansar seus adversários, era capaz de nocauteá-los, apesar de não ser um pegador.

Exemplos:
Gene Tunney, Sugar Ray Robinson, Carlos Monzón, Muhammad Ali, Sugar Ray Leonard, Pernell Whitaker, Mayweather Jr., Oscar de La Hoya e Lennox Lewis.

O brawler (ou slugger)

Podemos dizer que é o oposto do estilista, pois que é um boxeador com pouca mobilidade e que se caracteriza principalmente por estar sempre atacando, em linha reta e com grande volume de socos. São pegadores (dão socos muito fortes), mas lentos. Tendem a preferir ganchos e uppercuts, raramente usando combinações.
(Não há uma palavra em português para traduzir brawler e nem slugger; uma aproximação: brigão)

Muitos deles, têm a tendência de "telegrafar" os socos (puxando o braço para trás, antes de dar o soco). Sua presivibilidade (socos isolados e telegrafados) os deixa muito vulneráveis aos contragolpes.

Quando têm uma boa pegada e são capazes de aguentar socos fortes, tornam-se boxeadores muito perigosos, como foi o caso de George Foreman.

Exemplos:
Rocky Marciano, George Foreman e Ricardo Mayorga.

O in-fighter (ou swarmer)

O in-fighter prefere lutar no infighting (ou corpo-a-corpo, ou seja: prefere a luta à curta distância), atacando sem cessar, tipicamente atirando muitas combinações de ganchos e uppers. O in-fighter é um boxeador de alta pressão.
(Nos USA, é muito usada a denominação "swarmer", originada de "swarm", que significa enxame (de abelhas); poderíamos traduzi-la livremente como "metralhador de socos")

O in-fighter é muito mais técnico e tem melhor defesa do que o brawler. Ele também aplica muito mais socos do que o brawler, mas nem sempre é um pegador: ele tende a vencer cansando seu adversário, em vez de nocauteá-lo com uma "bomba".

Normalmente tem pequena estatura para sua categoria, sendo mais efetivo numa distância onde os braços mais longos do adversário não podem se estender para atingí-lo com força máxima; uma notável exceção, um in-fighter alto, foi Riddick Bowe. Além disso, precisa ter queixo de ferro, pois recebe muitos jabs até chegar a curta distância.

Exemplos:
Jack Dempsey, Jake LaMotta, Rocky Marciano, Joe Frazier, Roberto Duran, Julio César Chávez, Mike Tyson (no início da carreira), Arturo Gatti, Joe Calzaghe e Manny Pacquiao.

O contra-golpeador

Trata-se de um boxeador extremamente defensivo, com um verdadeiro arsenal de técnicas de esquiva e fintas. Quando ataca, esse ataque inicia com uma defesa. Ele prefere aplicar seus socos depois de uma esquiva ou bloqueio de golpe do adversário. Para que seu estilo tenha sucesso, ele precisa ter grande velocidade e boa pegada; além, é claro, de excelente defesa.

Exemplos:
Floyd Mayweather Jr., e Juan Manuel Marquez.

2).- Exemplos de estilos compostos


Estilistas pegadores (boxer-punchers ou pegadores ortodoxos):
são estilistas com forte pegada (soco muito forte). Embora sempre tenham grande velocidade nos socos, normalmente não têm uma mobilidade e uma defesa tão boas como um estilista puro. Um exemplo importante de boxer-puncher com excelente jogo de pernas foi Sugar Ray Robinson; enquanto que Joe Louis foi um boxer-puncher com pequena mobilidade, embora grande eficiência.
Exemplos: Joe Louis, Sugar Ray Robinson, Sugar Ray Leonard, Thomas Hearns, e Felix Trinidad.

Estilistas de curta distância:
são capazes de lutar tanto na curta como na longa distância.
Exemplos: Bernard Hopkins.

O bob-and-weaver fighter
A rigor, trata-se de um tipo especial de in-fighter que se esquiva balançando o corpo para frente ou para os lados, enquanto se aproxima do adversário com os punhos prontos para socar.
Exemplos: Mike Tyson (no inicio da carreira), Joe Frazier, Jack Dempsey e Rocky Marciano.

3).- Confrontos de estilos:

O resultado de uma luta, evidentemente, depende de muitos fatores: não apenas de estilos. Contudo, estatisticamente falando, temos algumas regras básicas: um in-fighter vence um estilista, um estilista ganha de um brawler e um brawler vence um in-fighter.

In-fighter versus estilista:
o in-fighter tende a prevalecer, pois que o estilista perde muito de seu poder de fogo na curta distância e tende a ser mais lento do que o in-fighter.
Por exemplo, o grande Joe Louis, que era fraco no infighting, admitiu que Rocky Marciano deveria derrotá-lo mesmo nos seus melhores tempos. Outro exemplo clássico é o das três lutas em que o in-fighter Joe Frazier deu muito trabalho para o estilista Muhammad Ali.

Estilista versus brawler:
A pequena velocidade (de pernas e punhos) e técnica precária do brawler fazem com que ele seja um alvo fácil para o rápido estilista. Tudo o que o estilista tem de fazer é estar sempre alerta, manter o brawler à distância com jabs efetivos até cansá-lo, e aí partir para o ataque.
A maioria das melhores lutas de Muhammad Ali e Lennox Lewis foram contra brawlers.

Brawlerr versus in-fighter:
para chegar na curta distância, o in-fighter tem de caminhar diretamente para a frente do brawler; assim, a menos que o in-fighter tenha queixo de ferro ou o pegador esteja sem fôlego, a vitória tende a sorrir para o pegador. Um exemplo clássico deste tipo de luta: George Foreman derrotando Joe Frazier.

4).- Referências:
- Monte Cox: It's a style thing.
  CyberBoxingZone, 1999.
- K. Ragpala: Different Styles in Boxing.
  
Sports, 2009.
Texto: © 2010, pela Fed. Rio-Grandense de Pugilismo.